15 de maio

eu,
os limites borrados,
o fim de mim,
enfim.

era eu nos buracos da parede,
no chão craquelado,
no azul das portas,
nas unhas raspadas,
nas sementes jogadas,
no crânio do cervo,
nas madeiras colocadas,
nas cascas capadas das capas descascadas.

nas árvores sem escala,
do corredor para lugar nenhum.
eu vi o carro azul,
o prego,
o pão,
vi a cortina,
o frio, o cheiro de mofo.
o blusão de lã que se amassava contra a superfície gélida do banco de madeira.
a sopa do meu avô, seus cigarros.
o fogão a lenha, os fiapos. 
as teias, as minhas teias. 

eu vi o prego fora de lugar, solto. 

vi o que não devia ver.

eu me vi. um eu indizível,
um eu inaudível,
rompido, interferido.
sem limite, eu era.
e era. 
era o que não era eu, pra ser eu.
porque eu era uma idéia.
e de repente, fui.

pra ser.

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